O lançamento do programa “Brasil Contra o Crime Organizado”, pelo Governo Federal, marca uma mudança importante na forma de enfrentar as facções criminosas no país. Com investimento previsto de R$ 11 bilhões, a iniciativa aposta em inteligência, integração entre estados, fortalecimento das investigações e asfixia financeira das organizações criminosas.
A proposta parte de um diagnóstico cada vez mais evidente: facções como o PCC e o Comando Vermelho deixaram de atuar apenas nas margens da sociedade e passaram a operar como estruturas econômicas sofisticadas, infiltradas em setores formais da economia, movimentando milhões por meio de esquemas de lavagem de dinheiro, empresas de fachada e redes empresariais complexas.
Nos últimos meses, operações da Polícia Federal em Goiás revelaram suspeitas de utilização de refinarias, distribuidoras e postos de combustíveis para lavagem de recursos ligados ao PCC, além da atuação de operadores financeiros envolvidos em contratos milionários. O caso desmonta a narrativa simplista de que o crime organizado se restringe às periferias ou aos presídios: hoje, seus tentáculos alcançam setores empresariais, cadeias logísticas e circuitos financeiros.
Ao lançar o programa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que é preciso “destruir o potencial financeiro do crime organizado”. A estratégia federal prevê investimentos em tecnologia, rastreamento de armas, equipamentos de inteligência, controle de presídios e fortalecimento das investigações sobre homicídios e lavagem de dinheiro.
Mas enfrentar o crime organizado exige mais do que operações espetaculares e discursos de “tolerância zero”. Segurança pública não pode ser reduzida apenas ao confronto armado. É preciso desmontar redes financeiras, interromper fluxos econômicos ilícitos e impedir que facções se consolidem como verdadeiras multinacionais do crime.
E esse debate precisa incorporar um elemento frequentemente invisibilizado: os impactos específicos sobre a vida das mulheres.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que a violência de gênero segue em crescimento no país. O Brasil registrou recordes recentes de feminicídios, com mais de 1,5 mil mulheres assassinadas em 2025 por razões de gênero.
O avanço das facções e das milícias agrava ainda mais esse cenário em territórios vulnerabilizados. Em áreas dominadas pelo crime organizado, mulheres convivem com restrição de circulação, medo constante, violência sexual, silenciamento e ausência do Estado. São também as principais responsáveis pelo sustento familiar e pela manutenção da vida cotidiana em comunidades marcadas pela violência armada.
Além disso, pesquisas apontam que mulheres negras e periféricas concentram os maiores índices de vitimização. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 63,6% das vítimas de feminicídio no país são mulheres negras.
A presença das facções também afeta diretamente a democracia e a participação política. Em regiões dominadas por grupos criminosos, moradores evitam falar sobre política, lideranças comunitárias sofrem intimidação e mulheres encontram ainda mais obstáculos para ocupar espaços públicos e de decisão.
O próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou recentemente que quatro em cada dez brasileiros afirmam conviver com a atuação do crime organizado em seus bairros.
Por isso, pensar segurança pública exige ir além da lógica do espetáculo. Combater o crime organizado também significa defender a democracia, fortalecer políticas públicas e garantir presença efetiva do Estado nos territórios.
A inteligência policial, o combate à lavagem de dinheiro e a integração federativa são fundamentais. Mas nenhuma política de segurança será completa sem enfrentar desigualdades históricas, proteger mulheres e reconstruir vínculos sociais em áreas vulnerabilizadas.
O combate às facções não é apenas uma pauta policial. É também uma pauta de defesa da vida das mulheres, dos territórios e da própria democracia brasileira.







