A baixa presença de mulheres na alta governança das empresas brasileiras tem levado organizações a investir na formação de novas lideranças femininas. O Brasil tem apenas 17% das cadeiras em conselhos de administração ocupadas por mulheres, segundo o Panorama Mulheres, do Núcleo de Estudos de Gênero do Insper. Diante dessa realidade, o Pacto de Promoção da Equidade Racial, uma organização da sociedade civil, começou a segunda edição do Pacto Transforma, programa que selecionou 30 executivas para uma preparação para cargos de C-Level e conselhos de administração.
As executivas foram selecionadas a partir das inscrições na 5ª edição do Festival Pacto das Pretas, que chega a São Paulo nesta sexta-feira (24), após passar por Salvador e Rio. O evento reúne executivos, especialistas e lideranças para discutir equidade racial e governança corporativa.
O programa de treinamento se estende por 14 meses e inclui MBA executivo em gestão empresarial, formação em inglês, mentorias e módulos sobre finanças corporativas, governança de inteligência artificial, transformação digital, riscos geopolíticos, análise de demonstrações financeiras e marketing estratégico./i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2026/5/4/HQMAaJTiK0gASAfCXEJA/arte23emp-111-mulheres-b6.jpg)
As participantes têm todos os custos pagos pela organização, incluindo despesas de deslocamento e hospedagem. É uma forma de reduzir barreiras de acesso. O investimento é de cerca de R$ 7 mil por participante, segundo os organizadores.
Wania Sant’Anna, presidente do Pacto de Promoção da Equidade Racial, diz que a preparação técnica precisa caminhar junto com a ampliação das oportunidades de acesso aos cargos de decisão. “O objetivo não é apenas formar lideranças. Precisamos conectar essas mulheres aos espaços onde as decisões são tomadas e ampliar suas oportunidades de acesso aos conselhos e à alta gestão.”
Segundo ela, a discussão sobre diversidade deixou de ser uma pauta restrita às áreas de recursos humanos e passou a integrar as estratégias de negócios. “Quando falamos de conselhos e C-Level, estamos falando de estratégia, sucessão e sustentabilidade dos negócios. Essa deixou de ser uma pauta exclusivamente de diversidade para se tornar uma discussão sobre a qualidade da governança”, afirma.
Os dados mostram que a representatividade feminina ainda está distante da composição da força de trabalho. O levantamento do Insper indica que 57% das empresas com conselho de administração não têm nenhuma mulher nesses colegiados. Nas empresas da amostra em que as mulheres são minoria, 83,6% dos conselhos têm baixar epresentatividade feminina. O estudo também aponta que cerca de 90% das mulheres que ocupam cargos de presidência, vice-presidência e diretoria são brancas.
Ana Paula Diniz, professora do Insper e coordenadora do núcleo de estudos de gênero, diz que iniciativas de capacitação são importantes, mas não suficientes para mudar esse cenário. “É necessário que as organizações revisem seus processos de identificação de talentos, sucessão, recrutamento e nomeação para posições de liderança. Caso contrário, corre-se o risco de aumentar a oferta de profissionais qualificados sem que existam mudanças efetivas nos critérios e nas oportunidades de acesso aos cargos de decisão.”
Na avaliação do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), o principal desafio também está no acesso aos espaços de decisão. Levantamento da entidade mostra que mulheres ocupam 16% dos cargos de administração das companhias abertas no país. No recorte racial, pessoas pretas representam apenas 0,5% desses cargos e pessoas pardas, 3,4%.
“Os dados disponíveis não indicam falta de qualificação, mas um desafio relacionado ao acesso e à visibilidade desses profissionais”, afirma Adriane de Almeida, diretora de ensino e inovação do IBGC.
Segundo Almeida, programas de desenvolvimento ajudam a fortalecer o fluxo de talentos, mas precisam ser acompanhados por processos de indicação e seleção mais transparentes para ampliar a diversidade na alta governança.
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