Um estudo conduzido pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) revelou um cenário preocupante sobre o acesso à saúde da mulher no Brasil: pacientes atendidas pelo SUS têm até cinco vezes menos acesso a biópsias de colo do útero do que mulheres da rede privada.
Os dados, referentes ao ano de 2024, mostram que a desigualdade no acesso à prevenção e ao diagnóstico precoce do câncer ainda acompanha diferenças de renda, território e estrutura de atendimento no país.
Segundo o levantamento, enquanto o SUS realiza cerca de 122,8 biópsias de colo do útero por 100 mil mulheres entre 20 e 69 anos, na rede privada esse índice chega a 625,7 exames por 100 mil mulheres.
A pesquisa também mostra que os planos de saúde já concentram 64,3% de todas as biópsias realizadas no Brasil, apesar de atenderem uma parcela muito menor da população feminina brasileira.
As diferenças entre rede pública e privada também são observadas na realização de mamografias, fundamentais para o diagnóstico precoce do câncer de mama.
Embora o SUS ainda concentre a maior parte absoluta dos exames realizados no país, proporcionalmente a rede privada realiza muito mais mamografias.
📊 Rede privada:
34,6 mil mamografias por 100 mil mulheres entre 50 e 79 anos.
📊 SUS:
14,9 mil mamografias por 100 mil mulheres.
Os pesquisadores alertam que os números da rede privada podem ser ainda maiores, já que o estudo não inclui exames pagos diretamente por pacientes particulares fora dos planos de saúde.
O levantamento foi publicado na revista científica Clinics, da FMUSP e do Hospital das Clínicas, e integra o estudo Demografia Médica no Brasil, realizado há 15 anos.
Norte e Nordeste seguem enfrentando maiores dificuldades
Além da desigualdade entre sistema público e privado, o estudo aponta fortes disparidades regionais no acesso à prevenção e ao diagnóstico.
No Sudeste, por exemplo, foram registradas 23,6 mil mamografias por 100 mil mulheres. Já na região Norte, o índice cai para 9,3 mil.
No caso das biópsias de colo do útero, a diferença também é expressiva:
📊 Sudeste:
333,88 procedimentos por 100 mil mulheres.
📊 Norte:
97,07 procedimentos por 100 mil mulheres.
Os dados revelam como o acesso à saúde da mulher no Brasil ainda depende diretamente do CEP, da renda e da estrutura disponível em cada região.
A pesquisa mostra ainda que a distribuição desigual de médicos especialistas contribui para aprofundar as dificuldades enfrentadas por milhares de mulheres brasileiras.
O Brasil possui atualmente cerca de 35,5 mil ginecologistas e obstetras. No entanto, quase metade desses profissionais está concentrada em apenas 16 grandes cidades do país.
O Distrito Federal aparece com a maior proporção de especialistas:
91,96 ginecologistas e obstetras por 100 mil mulheres.
Na outra ponta estão estados como:
- Maranhão;
- Pará;
- Amazonas.
Para especialistas, a concentração de profissionais e exames no setor privado evidencia a necessidade de fortalecimento das políticas públicas de saúde e ampliação da capacidade de atendimento do SUS.
Diagnóstico precoce salva vidas
O câncer de colo do útero e o câncer de mama estão entre as principais causas de morte de mulheres no Brasil. Em ambos os casos, o diagnóstico precoce aumenta significativamente as chances de tratamento e cura.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer do colo do útero é o terceiro tipo de câncer mais incidente entre mulheres brasileiras, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
Especialistas alertam que dificuldades no acesso a exames preventivos, demora para realização de procedimentos e desigualdades regionais impactam diretamente os índices de mortalidade feminina.
Para a Secretaria Nacional de Mulheres do PSB, os dados reforçam a necessidade de tratar a saúde da mulher como prioridade estrutural e política pública permanente.
“Não é aceitável que o acesso ao diagnóstico precoce dependa da renda ou do lugar onde a mulher vive. Saúde pública de qualidade também é garantia de dignidade, prevenção e direito à vida”, afirma Dora Pires, secretária nacional de mulheres do PSB.
✍️ Dora Pires
Secretaria Nacional de Mulheres do PSB
Conselho Político da SNM/PSB







