“A maternidade não pode continuar sendo tratada como obstáculo profissional. Falar de equidade de gênero também é discutir condições reais para que mulheres possam crescer sem precisar abrir mão da própria vida, da família ou da saúde mental.”
A afirmação é da secretária nacional de mulheres do PSB, Dora Pires, ao comentar os dados de uma pesquisa realizada pela Todas Group em parceria com a Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, que revelou que 8 em cada 10 mães já enfrentaram algum tipo de obstáculo de gênero no trabalho.
O estudo ouviu 1.534 mulheres em cargos de liderança que atuam em grandes empresas e multinacionais e mostra que a maternidade não apenas intensifica barreiras profissionais, mas também reduz redes de apoio e amplia renúncias pessoais e familiares.
Segundo a pesquisa, 79% das mães relataram já ter enfrentado obstáculos de gênero em suas trajetórias profissionais. Entre mulheres sem filhos, o índice também é elevado: 73%.
Os dados revelam que, mesmo em espaços ocupados por mulheres em posições de liderança, a maternidade segue sendo tratada como um fator que impacta diretamente oportunidades de crescimento, reconhecimento e permanência profissional.
Maternidade e carreira ainda são vistas como incompatíveis
Entre os dados mais alarmantes do levantamento está o fato de que uma em cada quatro mulheres afirmou já ter desistido da maternidade — ou do desejo de ter filhos — para conseguir avançar profissionalmente.
A pesquisa também mostra que as mães são as que mais acumulam renúncias ao longo da carreira:
- 67% afirmam ter sacrificado o tempo com a família;
- 74% relatam abrir mão do autocuidado;
- 48% apontam impactos na saúde mental.
Embora todas as entrevistadas tenham relatado algum tipo de renúncia em suas trajetórias profissionais, as mulheres mães enfrentam sobrecarga significativamente maior.
Os números dialogam com uma realidade histórica do mercado de trabalho brasileiro: o cuidado com filhos e tarefas domésticas segue sendo distribuído de forma desigual entre homens e mulheres.
Dados do IBGE mostram que mulheres dedicam, em média, quase o dobro de horas semanais aos cuidados e afazeres domésticos em comparação aos homens, mesmo quando possuem jornada profissional equivalente.
Outro ponto importante revelado pela pesquisa é a redução do apoio profissional recebido pelas mães dentro do ambiente corporativo.
Enquanto 45% das mulheres sem filhos afirmam ter sido ajudadas principalmente por outras mulheres ao longo da carreira, entre mães esse percentual cai para 38%.
Para especialistas, os números demonstram que a chegada da maternidade muitas vezes produz isolamento profissional justamente no momento em que mulheres mais necessitam de apoio e acolhimento.
“Os números mostram que hoje a chegada dos filhos parece criar uma barreira invisível que afasta colegas, mentoras e aliadas”, afirmou Dhafyni Mendes, cofundadora da Todas Group.
Mulheres mães enfrentam mais barreiras impostas por homens
A pesquisa também identificou diferenças importantes na relação das mulheres com colegas homens dentro do ambiente profissional.
Entre as mães, 57% afirmaram já ter sentido que homens dificultaram seu crescimento profissional por elas serem mulheres. Entre as que não têm filhos, o índice é de 43%.
Além disso, 21% das mães consideram que homens não contribuem para a equidade de gênero no trabalho.
Ao mesmo tempo, o levantamento mostra que cresce entre as mulheres mães a percepção da importância da participação masculina na construção de ambientes mais igualitários.
Quando perguntadas sobre quais atitudes seriam fundamentais para que homens fossem aliados reais das mulheres no mercado de trabalho, as respostas mais citadas foram:
- divisão do cuidado com os filhos;
- defesa da licença-paternidade;
- respeito ao tempo de fala das mulheres;
- combate a atitudes discriminatórias no ambiente profissional.
Para a Secretaria Nacional de Mulheres do PSB, os dados revelam que a desigualdade de gênero no trabalho não pode ser analisada separadamente da discussão sobre cuidado, maternidade e divisão das responsabilidades familiares.
Garantir igualdade de oportunidades para as mulheres passa necessariamente pela ampliação de políticas públicas de proteção à maternidade, fortalecimento da rede de cuidados, combate à discriminação e valorização da presença feminina nos espaços de liderança.







