SÃO PAULO O retrato de uma mesma mulher negra é usado para representar três personagens históricas: Luiza Mahin, Maria Felipa e Tereza de Benguela. O incômodo pela falta de uma representação adequada levou à criação do projeto Faces Negras Importam. A iniciativa reúne pesquisadoras, registros históricos e recursos de inteligência artificial para criar a imagem de cada uma delas.
O objetivo é evidenciar a importância dessas mulheres e dar individualidade a trajetórias que por muito tempo foram invisibilizadas.
As três figuras compartilham um histórico de resistência e desempenharam um papel importante para comunidades negras de suas épocas. No entanto, devido às condições materiais da população preta e parda ao longo da história, existem poucos registros de suas vidas.
Tereza de Benguela foi uma liderança quilombola do século 18. Durante anos esteve à frente do Quilombo do Quaritêrê, localizado em Mato Grosso, e lá participou da organização política e econômica da comunidade. Maria Felipa, por sua vez, foi uma líder popular negra que se tornou símbolo da independência da Bahia. Marisqueira e pescadora, ela viveu no século 19 e lutou contra a dominação portuguesa em 1822.
Também na Bahia, e no século 19, viveu Luiza Mahin, figura comumente descrita como uma das lideranças da Revolta dos Malês – levante de pessoas negras contra o regime escravista que aconteceu em Salvador, em 1835. A história de Luiza inspirou a personagem Kehinde, do romance “Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves.
As imagens construídas no projeto são possibilidades visuais feitas com o auxílio da tecnologia, afirma Aline Najara, historiadora que integrou a iniciativa e professora da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia).
Aline estuda as representações de Luiza Mahin na história e na literatura desde 2008. No Faces Negras Importam, foi ela quem conduziu a pesquisa usada na elaboração do retrato.
A principal fonte usada no processo foi uma carta autobiográfica de Luiz Gama, advogado abolicionista e filho de Luiza. “É nessa carta que ele traz o nome da mãe, traz as características físicas, fala da pele e dos dentes dela. Fala também que ela era uma mulher muito combativa, que era vingativa. Eu acho isso fantástico, pensando no contexto de uma sociedade escravista.”
As informações adquiridas na pesquisa foram compartilhadas com a direção de arte. O passo seguinte foi alimentar as ferramentas de inteligência artificial para orientar a criação dos retratos. De acordo com Aline, o processo foi refeito diversas vezes até alcançar um resultado mais fiel às referências históricas disponíveis.
A pesquisa resultou em três imagens, presentes no site do projeto. Além das fotos, há também vídeos sobre as personagens e um documento com informações a respeito de cada uma delas disponíveis para download. A iniciativa é patrocinada pelo Banco do Brasil.
A falta de documentos e fotos dificulta o trabalho dos historiadores, mas essa é, segundo Aline, uma lacuna que o movimento negro tenta preencher com iniciativas de resgate e valorização da ancestralidade.
Para a pesquisadora, revisitar as trajetórias de Luiza Mahin, Maria Felipa e Tereza de Benguela significa retomar um processo histórico a partir de perspectivas que foram silenciadas. Além disso, a iniciativa reconhece o protagonismo das mulheres negras nas lutas pela liberdade, diz.
“Tantas outras existiram e não tiveram seus rostos reconhecidos. Pensar a individualidade delas é também pensar nas anônimas que construíram a resistência deste país.” Segundo ela, faces de outras personagens ainda serão reveladas, ampliando o conhecimento sobre mulheres negras invisibilizadas ao longo da história.
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