Entre 2010 e 2022, o número de mulheres negras com ensino superior completo quase triplicou, passando de 1,9 milhão para 5,7 milhões. Contudo, os marcadores de gênero e raça continuam a definir quais grupos demográficos têm mais acesso às carreiras de maior prestígio social e remuneração, especialmente as “profissões imperiais”: Medicina, Direito e Engenharia.
Dados dessas duas edições do Censo da Educação Superior, sendo a de 2022 a mais recente, apontam que a ocupação das mulheres negras teve avanço numérico, mas não alterou a composição racial de alguns cursos do ensino superior. Em Direito, esse grupo passa de 8% para 15%; em Medicina, de 7% para 11%; e, em Engenharia Civil, de 4% para 9%. No comparativo com homens e mulheres brancos, contudo, os percentuais indicam que o acesso de mulheres negras encontra um teto.
Os dados estão presentes no estudo Da Marcha ao Bem Viver: Uma década de avanços, desafios e disputas pelos Direitos das Mulheres Negras no Brasil, realizado pela Gênero e Número, Oxfam Brasil e Observatório da Branquitude, em parceria com a Marcha das Mulheres Negras, com o objetivo de mostrar o que mudou na vida dessas mulheres entre a primeira edição da marcha, em 2015, e a segunda, em 2025.
Por definição do sociólogo Edmundo Campos Coelho, as profissões imperiais funcionam para corroborar a distinção social e auxiliar na manutenção do status quo no Brasil. A análise consta no livro “As Profissões Imperiais”, de 1999, e refere-se às três profissões que se mantêm fortes no imaginário social como “profissões de relevância” desde o Império. Hoje, o binômio “acesso-permanência” ajuda a explicar como o conceito se renova e se fortalece ao longo dos anos.
Os dados de cursos ligados a cuidado e educação revelam outra dinâmica em relação às profissões. Mulheres negras passaram de 32% para 42% do corpo discente na Formação de Professores; de 29% para 40% em Enfermagem e de 25% para 31% em Letras.
A socióloga Tamis Porfírio, doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e autora de “A Cor das Empregadas: a Invisibilidade Racial no Debate do Trabalho Doméstico Remunerado”, analisa que raça, gênero e classe, de forma articulada, definem a hierarquia social das profissões.
“Há demarcações muito bem estabelecidas socialmente a respeito dos grupos sociais que, a partir de concepções essencialistas, seriam ‘naturalmente’ dotados de certas características que os tornariam aptos ou não a ocuparem determinadas profissões. E isso se aplica não apenas para definir os indivíduos a desempenharem profissões valorizadas, mas também para definir os que ocuparão profissões desvalorizadas.”
Os dados do Censo mostram que homens brancos ainda dominam as profissões imperiais, apesar de terem reduzido sua participação no corpo discente. Em Direito, passaram de 42% para 33%; em Medicina, a redução foi de 47% para 38%; e, em Engenharia, caiu de 64% para 50%. Enquanto isso, mulheres brancas se mantiveram no mesmo nível de ocupação proporcional, oscilando de 1 a 2 pontos percentuais por curso.
Mas os dados exigem uma análise detalhada. A pesquisadora Marcelle Félix, doutora em Sociologia pelo IESP-UERJ e coordenadora de pesquisa no DARA (Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo), pondera: “Esse avanço maior se dá porque são cursos mais elitizados, com uma inserção anterior muito baixa de pessoas negras”.
Para ela, o que vemos atualmente reforça a necessidade de monitoramento sistemático da política de cotas, a partir do cruzamento de dados de raça, gênero e classe.
Equidade enfrenta resistência de médicos
Os dados da Demografia Médica no Brasil, publicados em 2025 pelo Ministério da Saúde, mostram que, em 2023, as escolas médicas públicas reservaram 12.857 vagas de graduação médica para estudantes pretos, pardos e indígenas, enquanto as instituições privadas separaram apenas 215 vagas do tipo. A diversidade racial dos estudantes de Medicina, portanto, é reservada às instituições públicas.
Em ano eleitoral, a política de cotas costuma voltar ao centro do debate público, porque “reconfigurou o modo como vemos a questão racial, dando o entendimento de que a desigualdade demanda a elaboração de políticas públicas”, avalia Marcelle Félix.
A política de cotas raciais no Brasil na educação dá seus primeiros passos ainda nos anos 1980, quando o então deputado federal Abdias do Nascimento apresentou o Projeto de Lei nº 1.332/1983, propondo reserva de vagas para pessoas negras em órgãos públicos. Apesar de arquivada, a proposta marcou o início de uma luta que, quase 20 anos depois, entraria na pauta nacional sem retorno.
Em 2003, a política chegou de vez no ensino superior, quando a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) se tornou a primeira instituição do país a reservar vagas para estudantes negros e de escola pública. Até 2010, quase uma centena de universidades já tinham política de ação afirmativa, a maioria para estudantes não-brancos. Em 2012, a política passou a ser obrigatória depois da aprovação por unanimidade da constitucionalidade da Lei de Cotas (Lei 12.711) pelo Supremo Tribunal Federal.
Pouco mais de uma década depois, houve a revisão que consta na Lei nº 14.723/2023, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Desde então, a lei incluiu estudantes quilombolas e adotou critério de renda mais restrito para parte das vagas sociais.
Foi com as cotas já instauradas e até ampliadas que a jovem Maria Luísa dos Anjos, 26, se formou em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A recém-médica avalia que, ainda assim, o caminho é todo desigual. “Num cursinho voltado para Medicina com cerca de 400 alunos, nós, negros, não éramos nem 15”, lembra.
Na Medicina, após a graduação os alunos buscam a especialização via residência médica, que tem acesso dificultado principalmente pelo custo do curso preparatório ou, ainda, de ter tempo para ele.
O estudo Demografia Médica no Brasil não apresenta o perfil racial dos residentes médicos do Brasil — só mostra que a maioria (58%) é de mulheres, com idade média de ingresso de 28,6 anos e 62,8% vindas de escolas médicas privadas. A maior parte entra na residência em até um ano após a graduação; 22% levam até dois anos, 12,5% até três anos e 4,7% levam cinco anos ou mais.
Em 2024, o Ministério da Saúde editou uma portaria para instituir um programa de ações afirmativas em todos os editais de seleção ou chamadas públicas do órgão, inclusive programas de residência vinculados a instituições públicas.
Para Maria Luísa, a política é uma das medidas possíveis para equilibrar a composição racial na profissão, mas ela vê resistência em colegas.
“Alguns médicos criticam, porque pensam que ‘somos todos médicos, partimos do mesmo ponto’. Mas não é o caso. Muitos nasceram em famílias de médicos, fizeram cursinho e tiveram acesso aos melhores suportes e materiais. E, do outro lado, muitos de nós, de baixa renda, quando nos formamos, precisamos trabalhar para ter nosso dinheiro, para garantir o mínimo para as nossas famílias, e acabamos não tendo como prioridade a residência”, avalia.
Ação coletiva para reverter cenário
A soma de falta de tempo e falta de dinheiro para uma residência que cobra as duas coisas é justamente o tipo de barreira que a Carta da 1ª Marcha das Mulheres Negras tentava resolver em 2015. O documento reivindicava, no campo educacional:
1) A ampliação e efetivação de políticas de assistência estudantil voltadas à permanência de estudantes beneficiários de cotas e outras ações afirmativas no Ensino Superior;
2) A implementação efetiva das diretrizes curriculares sobre a História da África e das culturas afro-brasileira e indígena; e
3) O fortalecimento de políticas públicas destinadas a enfrentar a evasão escolar e a defasagem idade-série.
A primeira reivindicação descreve com precisão a barreira que Maria Luísa aponta: sem bolsa que cubra o cursinho preparatório, recém-formados precisam trabalhar para o sustento próprio ou da família, sem tempo para estudar para uma prova exigente. O mesmo vale para o acesso à pós-graduação.
A V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos Graduandos das IFES apontou que, apesar de pouca diferença, são os estudantes cotistas que usam mais a biblioteca (60,4% contra 59,5% de ampla concorrência) e relatam mais leitura de obras literárias depois que entraram na universidade (52% contra 49% dos não cotistas).
Além disso, o estudo do Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Estudantis da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (FONAPRACE/ANDIFES) mostrou que 49,4% relataram querer cursar uma pós-graduação.
Marcelle Félix ressalta que o sistema que exclui estudantes negros não se resolve apenas com o ingresso na universidade, mas se reconfigura em cada etapa, da matrícula à formatura, e depois na continuação da trajetória acadêmica ou na inserção no mercado de trabalho.
Um levantamento do Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa (GEMAA), de 2018, mostrou que os programas de mestrado e doutorado em Ciências Sociais no Brasil tinham, em média, 77% de docentes brancos contra 15% negros, mas algumas instituições chegavam a ter corpo docente 100% branco. Apesar do recorte de uma área específica, o indicativo de afunilamento da trajetória acadêmica de pessoas negras fica evidente.
“Isso exige que as políticas de permanência sejam pensadas não apenas como suporte à sobrevivência financeira do estudante, mas como condição de possibilidade para uma trajetória acadêmica plena, que inclua acesso a programas de extensão, iniciação científica e demais atividades que compõem o currículo e viabilizam a inserção profissional posterior”, diz Marcelle.
As políticas de permanência variam: para fatores de classe, há necessidade de auxílios moradia, alimentação e transporte; para a maternidade, creches e licenças que respeitem as rotinas de quem é responsável por uma criança. Mas garantir esse conjunto de políticas, segundo Marcelle, esbarra num problema maior.
“Falta uma diretriz nacional para a assistência estudantil. Cada universidade possui autonomia para definir como investe seus recursos de assistência, o que, na ausência de parâmetros mínimos comuns, tende a agravar desigualdades entre instituições e as desigualdades raciais, de gênero e de classe entre os estudantes”, avalia.
Poder na advocacia segue homogêneo
São as lacunas das políticas de permanência e de equidade no mercado de trabalho que explicam por que a advocacia, com décadas de trajetória possível para mulheres negras, ainda concentra poder de forma tão homogênea.
O 1º Estudo Demográfico da Advocacia Brasileira, realizado em 2024 pela OAB em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, ouviu quase 21 mil advogados entre os mais de 1,3 milhão inscritos na Ordem. Os dados expõem que a profissão tem paridade de gênero (50% de mulheres ante 49% de homens), mas discrepância de raça: 64% dos entrevistados se declararam como brancos e 33%, negros. Mas, a exemplo do estudo Demografia Médica, há uma lacuna nos dados, que não cruzam gênero e raça.
Os dados também analisam a disparidade de renda. Entre os advogados que recebem até dois salários mínimos, mulheres são 17%, contra 11% de homens, e pretos são 22%, o dobro de pontos percentuais de brancos. Na outra ponta, entre quem recebe acima de 20 salários mínimos, homens (11%) e brancos (10%) são maioria, ante mulheres e pretos, que correspondem, respectivamente, a 6% e 3% de quem recebe a alta remuneração.
Apesar do estudo fazer a análise considerando pardos em outras variáveis, quando o assunto é renda só foi divulgada a disparidade de pretos em relação a brancos.
Há mais de 20 anos exercendo a advocacia, Ana Carolina Lima, sócia-fundadora do escritório Romana & Lima Advogadas Associadas, conseguiu atravessar todo o funil e consolidou-se como profissional de referência na sua área. Mas isso não impediu que colegas a subestimaram sequer antes dela se apresentar. A cena se repete, acredita Ana Carolina, porque mulheres negras costumam ser avaliadas com mais rigor do que os demais.
“Embora o Direito brasileiro seja considerado moderno em muitos aspectos, e a nossa Constituição tenha um forte compromisso com a igualdade, a cultura jurídica ainda é bastante limitada e conservadora. Os espaços de poder continuam pouco abertos à diversidade. O desafio não é apenas entrar. É conseguir permanecer, ser reconhecida e ocupar posições de liderança”, resume.
Numa profissão tão desfavorável para mulheres e pretos, Ana Carolina credita à própria família parte da sua resistência na área. Filha de uma advogada que “abriu portas”, Ana conta ter herdado referências para conseguir afirmar o seu lugar, desde a universidade. “A primeira coisa é entender que isso [ausência de negras] não acontece por falta de talento ou capacidade. Existe uma estrutura que as empurra para determinados lugares e dificulta o acesso a outros”, resume.
Nos últimos anos, as seccionais da OAB no Rio de Janeiro e em Alagoas aprovaram cotas raciais de ao menos 30% nas listas do Quinto Constitucional, primeira etapa para chegar aos cargos de desembargador.
Para Ana, políticas de afirmação resultam em “mais mulheres negras em cargos de decisão, mais referências para as novas gerações e menos naturalização dos privilégios que ainda estruturam essas profissões”.
A barreira começa antes da faculdade
As políticas voltadas à educação fizeram a diferença, mas a Engenharia, por exemplo, teve o crescimento mais tímido de mulheres negras. Na Engenharia Civil, elas são somente 9% entre as estudantes. Contudo, as profissionais enxergam uma mudança.
“Hoje, vemos mais mulheres ocupando alguns espaços de poder, mas não víamos antes. Ainda somos minoria. Existe um movimento importante de transformação, e cada mulher que entra [na profissão] abre caminho para outras”, avalia Aline Pedraça, engenheira elétrica e diretora regional do Senge-PR (Sindicato dos Engenheiros do Paraná).
Antes assistente social, Aline fez a transição de carreira por necessidade. Em Boa Vista, após uma separação conjugal, ela aprendeu sobre instalação elétrica e sobre as ligações clandestinas de energia às quais recorriam famílias que não tinham como pagar pela conta de luz. Basicamente, o encanto pela profissão nasceu da curiosidade. Mas os obstáculos e a dificuldade em se ver atuando na área quase a afastaram.
Das três mulheres entre os 75 alunos da sua turma, somente duas se formaram. Nenhuma outra negra. No percurso rumo ao diploma, chegou a ouvir de um professor: “Vai fazer psicologia. Isso aqui não é lugar para você. Isso aqui é lugar para homens”.
O relato de Aline concretiza a concepção essencialista apontada por Tamis Porfírio no início desta reportagem. E uma das formas de combatê-la é a política de cotas, amplamente defendida por Aline. “As cotas simplesmente ampliam a oportunidade para pessoas que historicamente tiveram menos acesso ao ensino superior. Entrar é apenas o começo da caminhada”, opina.
Para Aline, o impacto da mudança, na Engenharia, poderá ser medido daqui a mais gerações. “Espero que daqui a alguns anos, mulheres, meninas negras, escolham engenharia sem pensar se serão aceitas ou não, e que escolham simplesmente porque gostam, porque sonham e porque sabem que aquele também é o lugar delas.”
O Censo do Ensino Superior mede as estudantes da área, mas os dados de quem é registrado no conselho de classe não dão conta de mostrar o real cenário da engenharia no Brasil. O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) não tem marcador de raça em seu cadastro, apenas gênero, e de forma binária. A Gênero e Número procurou o Confea, que não retornou até o fechamento dessa reportagem sobre o levantamento de dados e o perfil dos profissionais cadastrados no conselho.
“Não temos dimensão total de quantas mulheres e negras têm na profissão, só estimamos. Sem marcador [de raça], não tem como saber”, avalia Simone Baía, vice-presidenta da Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros, a Fisenge.
Sem dados concretos para pleitear melhores e mais diretas políticas públicas, a Fisenge criou uma personagem em quadrinhos para ajudar a mudar o imaginário sobre uma pessoa engenheira.
A construção deliberada de uma personagem negra, mãe solo e sem rede de apoio, buscava se aproximar da realidade de quem tenta ocupar esse espaço. O projeto já soma mais de 70 histórias, foi usado em ações de leitura em favelas do Rio de Janeiro, recebeu prêmios, foi traduzida para o inglês e levada a fóruns internacionais.
“Eu acredito que essa linguagem ajuda as pessoas a se verem. É uma maneira lúdica de debater”, afirma.
Mulheres negras se concentram em cursos menos valorizados
De forma geral, as mulheres são maioria nas áreas que tendem a ser menos valorizadas econômica e simbolicamente, mas as negras se concentram nelas com mais força.
Mulheres negras passaram de 32% para 42% do corpo discente na Formação de Professores, curso em que homens (negros e brancos) são 7%. Em Enfermagem, negras foram de 29% para 40% das matrículas, um aumento de 11 pontos percentuais; já as mulheres brancas reduziram sua participação nesse corpo discente nos mesmos 11 pontos percentuais: de 57% para 46%.
No curso de Letras, as negras foram de 25% para 31%. Nos três cursos, a análise mostra que a alteração na composição do corpo discente ficou reservada à cor das mulheres, já que o contingente de alunos homens (independentemente de cor/raça) pouco foi alterado.
Marcelle avalia que essa maior proporção de mulheres negras é fruto de como a combinação de gênero e raça afeta a escolha do curso.
“É uma possibilidade que isso afete suas escolhas, até porque a tendência profissional nesse sentido não é uma peculiaridade do Brasil. Ao dizer ‘escolhas’ é importante levar em consideração as condições culturais, econômicas e sociais. Mas vale também refletir o quanto a valorização de determinadas carreiras não carregam prestígio de acordo com os atributos de cada grupo social”, aponta Marcelle.
Tamis Porfírio observa que a presença de mulheres negras na Enfermagem está concentrada entre as técnicas, que não exige ensino superior, mas é mais rara entre as chefias. A trajetória de mulheres negras avança mais rapidamente quando associada ao cuidado do que quando há associação com maior renda e status.
“O cuidado cotidiano foi historicamente realizado por mulheres negras escravizadas no Brasil colonial”, afirma Tamis, que credita ao histórico o estigma de servidão que se transferiu para a atividade e a rebaixou na hierarquia social.
As tarefas de cuidado, aponta a pesquisadora, envolvem lidar com sujeira, corpo e emoção, vistos como “sem valor”. Enfermagem e trabalho doméstico são atividades que dividem essa origem, mesmo que hoje uma exija diploma e a outra, não.
É por isso que, na leitura da socióloga, uma médica negra “traz uma certa perturbação” ao sistema: ela ocupa um lugar que a sociedade brasileira reservou, por séculos, para outra pessoa. Para a pesquisadora, a resistência maior está numa cultura que naturaliza a associação entre corpo e profissão.
“Isso demonstra que o problema não é apenas de acesso, mas também de permanência, reconhecimento e valorização. Enquanto determinados trabalhos continuarem sendo socialmente associados a determinados corpos, continuaremos reproduzindo desigualdades, mesmo em contextos de maior escolarização.”
A valorização de uma forma mais igualitária, raiz de maior equidade racial nas profissões, é pauta principal dos movimentos sociais, como a organização das mulheres negras que resultou na Carta da 1ª Marcha das Mulheres Negras e nos avanços subsequentes.
“Somente a mobilização constante e o monitoramento rigoroso das ações afirmativas podem manter a política de cotas e garantir que ela tenha avanços na redução de desigualdades”, afirma Marcelle Félix.
A partir das políticas vigentes, o estudo Da Marcha ao Bem Viver: Uma década de avanços, desafios e disputas pelos Direitos das Mulheres Negras no Brasil elenca uma série de recomendações para o fortalecimento do campo da Educação.
Passados dez anos da Carta da Marcha, parte das recomendações de 2015 se repete no estudo de 2025, fato que evidencia que parte dos problemas ainda se mantêm, apesar dos avanços recentes. Outra parte é sobre como lidar com o acolhimento a essas mulheres que chegam à universidade, como o incentivo à criação de espaços específicos de acolhimento e atendimento psicossocial.
Há também a recomendação da criação de mais estruturas como pró-reitorias de ações afirmativas e o fortalecimento da participação social, como os planos estaduais. No campo das políticas públicas de educação, ações interministeriais e formação de agentes públicos, para ampliar os saberes relacionados e a preparação de quem lida com Educação, também são recomendadas no estudo, visando a redução de práticas discriminatórias.
Nas salas de aula, o aumento de referências negras nas bibliografias e a valorização da produção acadêmica produzida por essas mulheres “contribui para o reconhecimento das mulheres negras como produtoras legítimas de conhecimento”.
Políticas de financiamento e fomento à pesquisa e a editais específicos podem auxiliar na “redução do funil racial no sistema acadêmico e para a diversificação do corpo discente e docente”. Além, claro, da parceria com movimentos sociais e coletivos para que todas as medidas estejam alinhadas com as necessidades reais dessas mulheres, como tem sido nos últimos anos.
“Todos os avanços que tivemos até então relacionados aos direitos das mulheres e dos negros e negras no Brasil contaram com a participação substancial dos movimentos sociais. Nada nos foi dado; tudo foi fruto de luta política e social persistente e estratégica. Se as cotas raciais nas universidades são hoje uma realidade, essa é uma conquista do movimento negro”, finaliza a socióloga Tamis Porfírio.
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