Júlia Cammy, de 23 anos, construiu uma comunidade no TikTok postando vídeos de maquiagem e esmaltação. Até que, na virada deste ano, seu perfil viralizou por um motivo particular: a roupa que ela usava em uma das postagens evidenciava um pouco mais os seus seios. Mesmo sem ter publicado o vídeo com intenção de sexualização, ela recebeu centenas de comentários obscenos e mensagens provocativas, que chegaram a migrar entre diferentes plataformas.
Hoje, o vídeo publicado soma 9,9 milhões de visualizações e quase 500 mil curtidas. “O conteúdo era voltado para unhas. Até as hashtags que eu usei foram todas relacionadas a esse universo. Não tinha nenhuma intenção além disso”, diz Júlia em entrevista à Marie Claire.
Com a repercussão, ela passou a ser procurada no Twitter e no Instagram por homens que perguntavam se ela teria um perfil no Only Fans – plataforma de conteúdo adulto para a qual ela não produz conteúdo. O assédio a surpreendeu, especialmente porque, na sua avaliação, não havia nada que justificasse esse tipo de associação.
Sua primeira reação foi questionar o que ela poderia ter feito de diferente naquele vídeo e se havia transmitido alguma mensagem equivocada.
“O problema é que eu tenho peitos, não o que eu faço com eles. É complicado, porque você acaba caindo naquela falácia de que, se não quer ser assediada, deveria prestar atenção à roupa que está usando”, reflete.
A experiência a fez repensar a forma como se veste. Por um tempo, evitou roupas decotadas e, ainda hoje, prefere não utilizar peças que evidenciam o colo ou tenham decotes muito profundos para gravar vídeos para as redes sociais.
O que faz um vídeo ‘sair da bolha’?
Segundo Carolina Terra, pesquisadora de comunicação e redes sociais e professora na Escola de Comunicação e Artes da USP, um vídeo pode alcançar uma grande repercussão dentro de uma bolha específica, formada por determinado nicho ou público, sem necessariamente viralizar.
Para que isso aconteça, é preciso “furar a bolha”, isto é, ultrapassar a audiência inicial e alcançar outros públicos que também possam se interessar pelo conteúdo. Mas esse processo não ocorre de forma aleatória.
De acordo com a professora, o funcionamento dos algoritmos ainda não é totalmente conhecido, já que as plataformas mantêm em sigilo os critérios utilizados por esses sistemas. Entretanto, é possível compreender que eles analisam comportamentos e padrões de interação dos usuários para selecionar e recomendar diferentes conteúdos.
“Isso significa que a circulação não depende apenas do que foi publicado, mas também da maneira como os usuários reagem ao conteúdo”, explica Terra.
A viralização resulta da interação entre o vídeo, o comportamento das pessoas e a forma como o algoritmo aprende com as reações, segundo Sylvia Iasulaitis, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade da UFSCar e do Núcleo de Estudos Sociopolíticos dos Algoritmos e da Inteligência Artificial.
A especialista ressalta que as próprias reações dos usuários ajudam a definir para quem um conteúdo será recomendado. Assim, quando determinados grupos passam a assistir, comentar ou compartilhar intensamente um vídeo, essas interações alimentam o sistema.
Terra acrescenta que conteúdos capazes de provocar emoções como raiva, ódio, surpresa, indignação e revolta tendem a alcançar maior circulação, já que o alto volume de interações sinaliza ao algoritmo que há um forte envolvimento do público com aquele conteúdo ou perfil, levando o sistema a recomendá-lo para mais pessoas.
É importante destacar que atenção e engajamento não significam necessariamente aprovação. Um conteúdo também pode mobilizar pela sexualização, pelo conflito ou pela hostilidade, por exemplo.
“É nesse sentido que falamos também em vieses algorítmicos de gênero: padrões sociais de discriminação passam a se refletir também nos padrões de visibilidade e circulação dos conteúdos”, completa Iasulaitis.
Quando a repercussão sai do controle
Entre os comentários do vídeo de Júlia, os que mais chamaram a sua atenção foram figurinhas obscenas, que tinham forte conotação sexual.
“Eu me senti muito mal. Me senti suja”, conta.
A viralização resulta da interação entre o vídeo, o comportamento das pessoas e a forma como o algoritmo aprende com as reações, segundo Sylvia Iasulaitis, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade da UFSCar e do Núcleo de Estudos Sociopolíticos dos Algoritmos e da Inteligência Artificial.
A especialista ressalta que as próprias reações dos usuários ajudam a definir para quem um conteúdo será recomendado. Assim, quando determinados grupos passam a assistir, comentar ou compartilhar intensamente um vídeo, essas interações alimentam o sistema.
Terra acrescenta que conteúdos capazes de provocar emoções como raiva, ódio, surpresa, indignação e revolta tendem a alcançar maior circulação, já que o alto volume de interações sinaliza ao algoritmo que há um forte envolvimento do público com aquele conteúdo ou perfil, levando o sistema a recomendá-lo para mais pessoas.
É importante destacar que atenção e engajamento não significam necessariamente aprovação. Um conteúdo também pode mobilizar pela sexualização, pelo conflito ou pela hostilidade, por exemplo.
“É nesse sentido que falamos também em vieses algorítmicos de gênero: padrões sociais de discriminação passam a se refletir também nos padrões de visibilidade e circulação dos conteúdos”, completa Iasulaitis.
Quando a repercussão sai do controle
Entre os comentários do vídeo de Júlia, os que mais chamaram a sua atenção foram figurinhas obscenas, que tinham forte conotação sexual.
“Eu me senti muito mal. Me senti suja”, conta.
Júlia, por outro lado, optou por desativar os comentários e excluir os seguidores que haviam feito manifestações obscenas, sem realizar denúncias formais. O processo levou cerca de 20 dias. A jovem conta que já havia tido problemas anteriores ao tentar acionar o suporte da plataforma, e ficou frustrada com a experiência. “Então, dessa vez nem pensei nisso”, afirma.
Grupos mais vulneráveis à violência nas redes
De acordo com Pollyana Ferrari, professora da PUC-SP, jornalista e autora dos livros Descolonizar pelo afeto e Como sair das bolhas, as ferramentas de moderação das plataformas para proteger criadores de conteúdo ainda deixam a desejar. Para ela, a falta de uma regulação efetiva faz com que os usuários fiquem à mercê dos mecanismos de autorregulação das próprias big techs.
A especialista também chama atenção para quem está mais vulnerável a esse tipo de exposição: perfis de mulheres, especialmente mulheres negras, da comunidade LGBTQI+ e adolescentes, principalmente meninas.
“A era da pós-verdade em que vivemos traz à tona preconceitos, crenças e racismo, que muitas vezes se sobrepõem à verdade nas redes”, observa.
Quando se trata de uma questão tão complexa quanto a sexualização, Lazo completa que essa experiência pode assumir contornos distintos a partir dos atravessamentos de raça e identidade de gênero, uma vez que o racismo e a LGBTIAPN+fobia também produzem formas particulares de sexualização dos corpos.
Durante a pandemia, a historiadora Paola Alves de Souza acompanhou o caso da Amanda Selfie, uma chatbot criada pelo estudo PrEP 15-19, do qual fazia parte, para conversar com adolescentes sobre sexualidade, gênero, Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e prevenção ao HIV.
Concebida como uma mulher trans negra, a ferramenta funcionava como uma espécie de educadora de pares virtual e chegou a ser utilizada nas estratégias digitais do projeto até março de 2021. A pesquisadora conta que a personagem foi alvo de assédio.







