As histórias por trás das relações de poder que moldaram e ainda moldam o trabalho doméstico no Brasil são contadas com o devido respeito, compromisso e sensibilidade na atualidade por profissionais como a cineasta Karol Maia, diretora de “Aqui não entra luz”, documentário que deve chegar em breve no streaming e que articula memória, escuta e experiência pessoal para dar visibilidade a trajetórias marcadas por exploração, mas também por resistência, afeto e luta por direitos.
Filha de Dona Miriam, ex-trabalhadora doméstica, a cineasta cresceu acompanhando a rotina de trabalho da mãe, que era responsável por cuidar do lar e dos filhos de seus empregadores. Em participação no videocast “Bom dia, Obvious”, apresentado pela escritora Marcela Ceribelli, a diretora compartilha experiências que a levaram à produção do filme e o que pensa sobre a herança escravocrata que ainda sustenta o trabalho doméstico no país.
Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dão conta de que o Brasil ainda tem cerca de 5,9 milhões de trabalhadores domésticos, dos quais a grande maioria são mulheres e negras — 91,9% e 69%, respectivamente.
Vencedor de dois prêmios no Festival de Brasília de 2025, o filme dirigido por Karol Maia parte do chamado “quarto da empregada”, espaço recorrente em casas e apartamentos brasileiros, para investigar como a arquitetura foi projetada para segregar corpos e sustentar hierarquias sociais.
A cineasta compara o cômodo às antigas senzalas, espaços destinados aos africanos escravizados durante o período colonial.
“O quarto de empregada é um cômodo que está na nossa arquitetura desde o século 19 e é um projeto direto da senzala. Essa foi a minha primeira premissa para fazer o filme. Eu queria investigar como os dois eram resultados do mesmo país e têm semelhanças físicas. O quarto da empregada está perto da cozinha, da lavanderia e é mal iluminado, assim como a senzala”, conta no videocast.
Em meio a estudos e busca por financiamento, Karol Maia levou oito anos para conseguir tirar o documentário do papel. A produção chegou aos cinemas brasileiros em maio de 2026.
Da PEC das Domésticas ao trabalho informal
Como revela os estudos da cineasta, nem mesmo a PEC das Domésticas (Emenda Constitucional aprovada em 2013 e regulamentada em 2015) garantiu a plena igualdade de direitos para as trabalhadoras da categoria.
A legislação trouxe avanços como a previsão de acesso a direitos como o salário mínimo, seguro desemprego, proteção contra demissão sem justa causa, hora extra, entre outras medidas. Por outro lado, em um país que não vê valor no trabalho doméstico, muitas dessas profissionais deixaram de ser registradas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e caíram na informalidade.
“A PEC das Domésticas inaugura um momento muito importante sim, mas porque essas trabalhadoras passaram a ser ‘mais caras’ para as casas, elas passaram a ser trabalhadoras informais, e de informalidade o povo negro já está cansado. É um passo importante, mas enquanto país não se constrói uma cultura de valorização dessa trabalhadora. Para a gente chegar num número digno de trabalhadoras registradas, com direitos garantidos, é importante mudar a cultura do país, que subestima essa profissional e o trabalho doméstico no geral. É preciso um país inteiro para mudar essa realidade”, aponta Maia.
Durante a conversa no videocast, a cineasta também destaca a relevância do trabalho dos sindicatos das trabalhadoras domésticas, como a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad).
“O Brasil tem um trabalho muito sólido dos sindicatos das trabalhadoras domésticas. As conversas que essas mulheres que estão na linha de frente fazem ainda é muito básico, de falar que essas profissionais não podem trabalhar mais de oito horas por dia, que precisam ter férias… É esse tipo de conversa que essas mulheres ainda têm, sobre o mínimo. Eu amo muito esse país e queria que o Brasil abraçasse essa pauta junto com essas mulheres”, detalha a profissional.
A diretora de Aqui não entra luz recorda ainda como a arquitetura segregadora dos imóveis com o quarto da empregada a causou na infância uma sensação de não pertencimento e faz um paralelo com sua vivência na indústria cinematográfica.
“Eu trabalho com cinema, que não é um lugar feito para pessoas como eu. O cinema não é, definitivamente, um lugar feito para ser construído por pessoas negras, LGBTs, periféricas e trans, então esse sentimento [de não pertencimento] é recorrente, mas o bom é que agora eu consigo encontrar outros pares. Às vezes a gente consegue mesmo de uma forma pequena criar células de segurança nesses lugares.”
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