Sabrina Mendes é professora e coordenadora na PUC Minas
e fundadora da Chiccas – estratégias para equidade _ As mulheres somam 53% do eleitorado registrado no Tribunal Superior Eleitoral. São quem mais vota, quem mais decide eleições e quem, em última análise, escolhe os destinos do país. Ainda assim, corremos o risco de não ter sequer uma candidata à Presidência da República, algo inédito desde 2002.
O Brasil ocupa a 139ª posição em ranking internacional sobre presença de mulheres nos parlamentos, entre 184 países. Esse número revela que a baixa representatividade feminina na política não é acaso ou coincidência, mas resultado de processos históricos que foram sedimentando a ideia de que o espaço público é, por definição, masculino. Às mulheres reservou-se a função de cuidar, apoiar e, apenas nos últimos 90 anos, votar.
Participação eleitoral
O panorama de 2026 deixa claro que ainda lutamos pelo direito de governar. Entre os nomes cotados para disputar os governos estaduais, aparecem apenas 20 mulheres, queda de 41% em relação a 2022, quando 34 mulheres concorreram às chefias dos Executivos estaduais. Os partidos continuam distribuindo financiamento de campanha de forma desigual: mulheres recebem menos recursos e, mais frequentemente, em forma de material, não em dinheiro. O que importa destacar não é só a diferença numérica, mas o que ela revela sobre como os próprios partidos valorizam as candidaturas femininas.
Há algo de paradoxal na equação das eleições brasileiras: as mulheres são decisivas nas urnas, mas não são percebidas como protagonistas naturais da disputa política. São convocadas a apoiar candidaturas masculinas, a compor chapas para cumprir cotas mínimas, a mobilizar bases, mas raramente a ocupar o centro. E, quando ocupam, precisam provar uma competência que dos homens simplesmente se presume.
Representatividade
Mas o debate precisa ir além da representatividade numérica. Eleger mais mulheres é necessário, mas não suficiente, e a história política brasileira frequentemente nos reforça essa máxima. Por isso, mais do que nunca, precisamos olhar para as trajetórias: o que essa candidata defendeu antes de pedir um voto? Quais projetos assinou? Como votou em pautas que afetam diretamente a vida das mulheres, como violência doméstica, licença-maternidade, igualdade salarial e saúde reprodutiva?
Eleger mulheres com histórico consistente nessas pautas é diferente de eleger mulheres apenas pelo gênero. E essa distinção precisa fazer parte do letramento eleitoral feminino.
A boa notícia é que, para cargos de senadora, deputada estadual e federal, por exemplo, é possível encontrar boas candidatas, basta pesquisar. O portal do Tribunal Superior Eleitoral (tse.jus.br) reúne dados sobre candidaturas, declarações de bens e filiações partidárias. Os sites da Câmara dos Deputados (camara.leg.br) e do Senado Federal (senado.leg.br) permitem consultar o histórico de votações e os projetos de lei apresentados por cada parlamentar. Plataformas como o Congresso em Foco e a Agência Pública também produzem análises acessíveis sobre o comportamento legislativo de candidatos e candidatas. Informações não faltam, mas precisamos buscá-las.
Escolhas
Em ano eleitoral, não há neutralidade. Cada voto, cada candidatura apoiada, cada conversa sobre representatividade carrega peso político. O Brasil que vai às urnas em outubro está sendo construído agora, nas escolhas partidárias, nos debates que elegemos como relevantes, nas perguntas que fazemos ou deixamos de fazer. Talvez o principal questionamento que deva nos atravessar enquanto sociedade seja: se as mulheres são maioria nas urnas, o que nos faz aceitar que sejam tão poucas na política?
A sub-representação feminina não é um problema das mulheres. É um problema de democracia. E democracias incompletas são excludentes, mas certamente funcionam para quem sempre esteve lá.
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