O governo federal anunciou um investimento de R$ 60 milhões para pesquisas sobre endometriose, dor pélvica e saúde menstrual. O montante representa o maior aporte já destinado no Brasil à produção de conhecimento sobre a saúde das mulheres. Coordenada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a medida busca transformar pesquisa científica em respostas concretas para milhões de brasileiras afetadas por condições historicamente negligenciadas.
Do total de recursos, R$ 50 milhões serão destinados pelo MCTI, por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), para financiar pesquisas e tecnologias com potencial de aplicação no SUS. Os outros R$ 10 milhões serão investidos pelo Instituto Alana na criação de uma rede nacional de pesquisa voltada à endometriose, à dor pélvica e à saúde menstrual, com foco na articulação de estudos e na ampliação da produção científica sobre o tema.
O anúncio ocorre em um contexto de crescente visibilidade da endometriose na agenda da saúde pública. Dados do SUS mostram que os atendimentos relacionados à doença na Atenção Primária à Saúde saltaram de 82.693 registros em 2022 para 145.744 em 2024, um aumento de 76% em apenas dois anos. Os números refletem tanto a ampliação do acesso aos serviços de saúde quanto o avanço das ações de conscientização sobre uma condição que, por muito tempo, permaneceu cercada por desconhecimento e subnotificação.
Apesar desse avanço, os desafios permanecem expressivos. Estima-se que cerca de 8 milhões de brasileiras convivam com a endometriose, doença inflamatória crônica que pode provocar dores intensas, comprometer a qualidade de vida e afetar a fertilidade. Segundo o Ministério da Saúde, aproximadamente 40% das mulheres diagnosticadas enfrentam dificuldades para engravidar. Além dos impactos físicos, a condição interfere na permanência escolar, na inserção profissional e na saúde mental de milhões de pacientes.
Ao anunciar o investimento, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, afirmou que a iniciativa responde a um problema de saúde pública que afeta milhões de brasileiras e ainda enfrenta obstáculos para diagnóstico e tratamento. Segundo ela, quando meninas deixam de frequentar a escola por causa da dor ou mulheres passam anos em busca de respostas para seus sintomas, o Estado precisa atuar por meio da ciência, da inovação e das políticas públicas.
“Esse investimento demonstra o compromisso do Governo do Brasil com a ciência como instrumento de cuidado, inclusão e promoção da qualidade de vida das mulheres brasileiras”, afirmou.
A primeira-dama Janja Lula da Silva também participou do anúncio e destacou que questões relacionadas à saúde das mulheres foram, durante muito tempo, invisibilizadas ou minimizadas. Segundo ela, muitas mulheres convivem com dores intensas sem receber diagnóstico ou acolhimento adequados, realidade que ajuda a explicar a importância de ampliar investimentos em pesquisa e produção de conhecimento sobre a doença.
Cinco eixos para enfrentar lacunas históricas da doença
A chamada pública do CNPq contemplará cinco eixos estratégicos: causas e prevenção, diagnóstico, tratamento, biorrepositórios e impacto social. A expectativa é ampliar o conhecimento científico sobre a doença, acelerar o desenvolvimento de novas tecnologias e fortalecer a incorporação de soluções inovadoras ao SUS.
A iniciativa também dialoga com medidas adotadas recentemente pelo Ministério da Saúde para ampliar o cuidado às pacientes com endometriose. Durante o anúncio, o ministro Alexandre Padilha lembrou que o SUS passou a contar, no último ano, com seu primeiro protocolo clínico voltado à doença e com mecanismos específicos de financiamento para consultas, diagnóstico e tratamento. Segundo ele, alguns estados mais do que dobraram o número de mulheres atendidas e acompanhadas, embora a cobertura ainda esteja distante da demanda existente.
O novo investimento busca aprofundar esse movimento ao aproximar pesquisa científica, inovação e políticas públicas, ampliando a capacidade do SUS de oferecer respostas mais rápidas e eficazes às pacientes.
Parte dos recursos será destinada à criação de uma rede nacional de pesquisa apoiada pelo Instituto Alana. A proposta é estruturar uma colaboração permanente entre centros de pesquisa, universidades e organizações da sociedade civil, fortalecendo a produção de evidências e ampliando a capacidade do país de desenvolver respostas para questões que afetam diretamente a vida de meninas e mulheres.
Mais do que financiar estudos, o investimento sinaliza uma mudança de perspectiva sobre problemas que durante décadas foram tratados como questões privadas ou secundárias. Ao colocar a endometriose, a dor pélvica e a saúde menstrual no centro de uma agenda de ciência, inovação e saúde pública, o país amplia as condições para transformar conhecimento em políticas concretas e garantir respostas mais efetivas para milhões de mulheres brasileiras.
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