á dez anos, a Gênero e Número nasceu porque uma pergunta insistia em permanecer sem resposta. Quem desaparece quando os dados contam a história do Brasil?
Desde o início, compreendemos que a ausência de dados e de informação nunca foi neutra. Quando mulheres, pessoas negras, indígenas, quilombolas, população LGBTQIA+, pessoas com deficiência e tantos outros grupos aparecem pouco nas estatísticas, ou aparecem somente associados à violência e à violação de direitos, suas demandas e possibilidades de futuro permanecem à margem das políticas públicas, dos orçamentos e das narrativas por meio das quais o país reconhece a si mesmo.
Foi para enfrentar essa invisibilidade que a Gênero e Número foi criada. Surgimos como uma iniciativa de jornalismo de dados e crescemos como uma organização que produz pesquisas, constrói metodologias, desenvolve tecnologias, capacita profissionais, fortalece organizações e transforma dados e evidências em instrumentos de comunicação, participação e incidência política.
Ao longo dessa caminhada, compreendemos que nosso trabalho era maior do que revelar números ou denunciar desigualdades. Também era necessário disputar narrativas, produzir evidências capazes de fortalecer políticas públicas, construir memória e oferecer ferramentas para movimentos sociais, jornalistas, pesquisadoras, gestoras públicas e organizações comprometidas com a democracia, com a justiça racial e de gênero e com a ampliação de direitos.
Em uma década de atuação, ajudamos a produzir dados onde eles não existiam. Traduzimos informações complexas para que circulassem para além da academia e dos governos. Desenvolvemos investigações que revelaram desigualdades históricas e contribuíram para qualificar o debate público sobre democracia, violência de gênero, direitos reprodutivos, justiça racial, participação política, trabalho doméstico e de cuidado, alimentação e mudanças climáticas, educação e direitos da população LGBTQIA+.
Também criamos projetos que hoje integram uma infraestrutura pública de conhecimento sobre gênero, raça e sexualidade no Brasil. O Mapa Nacional da Violência de Gênero tornou-se uma referência ao reunir, sistematizar e democratizar dados antes dispersos sobre as diferentes formas de violência que atingem mulheres no país. Com o Radar Antigênero, passamos a monitorar como a desinformação, o ódio e os ataques aos direitos se organizam e circulam nas plataformas digitais, influenciando o debate público e a própria democracia.
s duas edições da pesquisa Sem Parar também representam um marco dessa trajetória. A primeira, realizada durante a pandemia de covid-19, revelou como a crise sanitária aprofundou desigualdades que já estruturavam a vida das mulheres, articulando a sobrecarga do cuidado, o trabalho doméstico não remunerado, a perda de renda e a violência. A segunda edição retomou essa investigação no período posterior à emergência sanitária e demonstrou que a chamada crise do cuidado não terminou com a pandemia.
Esse percurso também nos levou a acompanhar e qualificar o debate sobre a construção de uma política pública de cuidados no Brasil, reconhecendo que cuidar e ser cuidado são direitos. A sustentação da vida, portanto, não pode continuar sendo tratada como uma responsabilidade privada das famílias – e, dentro delas, principalmente das mulheres, em especial das mulheres negras.
Por meio de pesquisas, reportagens, entrevistas, conteúdos audiovisuais e do projeto Teias do Cuidado, contribuímos para tornar visíveis as relações entre trabalho remunerado e não remunerado, divisão sexual e racial do trabalho, desigualdades de gênero e responsabilidade do Estado, fortalecendo a compreensão do cuidado como uma questão pública.
Nesse período, produzimos pesquisas e estudos sobre diferentes temáticas fundamentais para compreender as desigualdades brasileiras, ao mesmo tempo em que desenvolvemos metodologias capazes de produzir informações sobre populações historicamente invisibilizadas. Com a criação do labGn, demos um novo passo nessa trajetória, contribuindo para a capacidade de outras organizações de transformar conhecimento, evidências e inteligência de dados em soluções para organizações que também atuam pela justiça social no Brasil.
Dados não mudam o mundo sozinhos
São as pessoas, os movimentos, as organizações e as comunidades que transformam a realidade, enquanto os dados ajudam a iluminar caminhos, fortalecer argumentos, romper silêncios e tornar mais difícil ignorar aquilo que, durante tanto tempo, foi tratado como exceção, problema individual ou consequência inevitável das estruturas sociais.
As evidências precisam chegar às pessoas que podem utilizá-las para transformar comunidades, políticas públicas, instituições e formas de compreender o mundo. Por isso, ao longo dos anos, também passamos a investir em formação, comunicação estratégica, letramento de dados e fortalecimento institucional de quem atua nos territórios, na imprensa, na pesquisa, nos movimentos sociais e na gestão pública.
Nesses dez anos, vimos crescer o negacionismo, a desinformação, os discursos de ódio e os ataques às agendas de gênero, raça, sexualidade e direitos humanos. Vimos também a tecnologia aprofundar desigualdades e reproduzir discriminações, ao mesmo tempo em que criava novas possibilidades de investigação, mobilização, articulação e incidência.
Esse cenário não diminuiu nossa convicção. Ao contrário, reafirmou que produzir informação rigorosa, acessível e comprometida com os direitos humanos é uma forma de defender a democracia e de ampliar as condições para que as pessoas participem das decisões que afetam suas vidas.
Essa trajetória só foi possível porque nunca foi construída individualmente. Ela nasceu e se fortaleceu por meio de uma rede formada por fundadoras, associadas, pesquisadoras, jornalistas, designers, cientistas de dados, organizações parceiras, financiadores, movimentos sociais e milhares de pessoas que utilizaram nossas reportagens, pesquisas, bases de dados e metodologias para defender direitos, promover debates públicos e incidir sobre políticas e instituições.
Ao longo desses anos, esse compromisso também recebeu diferentes formas de reconhecimento público.
Fomos a primeira organização a vencer duas categorias em uma mesma edição do Prêmio Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados.
Recebemos o Prêmio ANPOCS de Jornalismo Científico, conquistamos menções honrosas em premiações de Direitos Humanos e fomos finalistas do Troféu Rastilho e de outros prêmios do jornalismo brasileiro, além de recebermos reconhecimento nacional e internacional pelo impacto do Mapa Nacional da Violência de Gênero. Cada uma dessas conquistas reafirma não apenas a qualidade do trabalho realizado, mas a relevância pública de produzir conhecimento comprometido com a democracia, a justiça social e a transformação das estruturas que sustentam as desigualdades.
Celebrar dez anos, no entanto, não significa olhar para trás com nostalgia, nem tratar essa trajetória como um ponto de chegada. Significa reconhecer o caminho percorrido e, ao mesmo tempo, renovar os compromissos que nos trouxeram até aqui.
Nos últimos anos, o Bem Viver nos fez refletir de forma profunda sobre como o nosso trabalho pode ser orientado, não como uma utopia distante ou um conceito abstrato, mas como uma possibilidade concreta de reorganização da vida, das relações, das políticas e das prioridades coletivas.
Queremos um país em que todas as mulheres possam viver livres da violência e com acesso pleno a direitos; em que mulheres negras não sejam invisíveis nas estatísticas nem nos espaços de poder; em que mulheres indígenas e quilombolas tenham seus territórios, modos de vida e direitos à terra respeitados; em que pessoas LGBTQIA+ existam nos bancos de dados e, sobretudo, nas políticas públicas que garantem sua cidadania; em que o trabalho do cuidado seja reconhecido como responsabilidade coletiva e compromisso do Estado; e em que as decisões públicas sejam construídas com transparência, informação de qualidade, participação social e compromisso com a superação das desigualdades históricas que estruturam a sociedade brasileira.
É para fortalecer esse projeto de sociedade que trabalhamos não apenas para relatar desigualdades, mas em compreendê-las e enfrentá-las; desenvolvemos tecnologias que ampliem direitos, em vez de reproduzir discriminações.
E produzimos dados capazes de contar histórias mais completas sobre quem somos, sobre as violências que atravessam o país e também sobre as formas de resistência, cuidado, criação e transformação que sustentam a vida.
Sabemos que o futuro que desejamos não será construído apenas com informação, mas também com coragem para disputar narrativas, produzir evidências, fortalecer alianças e imaginar outros caminhos possíveis. Por isso, queremos construir os próximos dez anos ao lado de quem acredita que dados também podem ser uma forma de cuidado, que evidências podem se tornar ferramentas de reparação e que o conhecimento, quando compartilhado e colocado a serviço da coletividade, é uma das tecnologias mais poderosas para fortalecer a democracia e fazer do Bem Viver uma realidade.
Celebrar esta década é renovar nosso compromisso com a produção de conhecimento público, com a justiça racial e de gênero, com o fortalecimento da democracia e com o direito de todas as pessoas existirem plenamente, inclusive nos dados que ajudam a construir o país.
Seguiremos fazendo perguntas difíceis, produzindo evidências e construindo alianças, porque acreditamos que, quando os dados encontram as pessoas e se conectam às suas lutas, experiências e conhecimentos, deixam de ser apenas números e se tornam possibilidades de transformação.
Imaginar futuros mais justos é uma forma de começar a construí-los. E os próximos dez anos começam agora.
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