Recentemente, ouvi um especialista em gestão de desastres falar do trabalho nas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. Para explicar a organização das respostas diante do caos, ofereceu uma régua: a relação entre a demanda de uma tragédia e a capacidade estatal de resposta.
Numa crise, o Estado ainda dá conta do recado, pois há mais recursos do que necessidades; numa emergência, capacidade e demanda se aproximam; num desastre, a demanda ultrapassa a capacidade de resposta; e numa catástrofe, a tragédia engole as estruturas de socorro.
A imagem permaneceu comigo, não porque uma enchente e um feminicídio sejam equivalentes, mas porque ainda tratamos cada vítima como uma tempestade inesperada diante de um fenômeno persistente e previsível. Realizada com mais de 21mil brasileiras de 16 anos ou mais em todo o país, a 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, feita pelo DataSenado, escancara esse abismo.
Quando perguntadas diretamente se sofreram violência doméstica no último ano, 4% disseram que sim. Quando se consideram também as respostas a 13 situações concretas, como humilhações, controle do dinheiro, agressão e sexo forçado, e se reúnem os dois grupos sem dupla contagem, chegamos a 33%, uma em cada três brasileiras.
Estamos falando de quase 29 milhões de brasileiras em situação de violência doméstica ao longo de um ano. Para quase 25 milhões delas, a violência se revela na descrição do que viveram, mas não no nome que dão à própria experiência.
O levantamento alcança não apenas o que se tornou registro em uma delegacia ou qualquer outro serviço público, mas experiências fora do campo de visão das instituições, dimensionando necessidades de proteção, cuidado, informação e acesso a direitos.
Aí pergunto: e se todas resolvessem pedir ajuda? Seriam mais de 79 mil primeiros atendimentos por dia. E sabemos que um caso de violência raramente se resolve em uma única visita.
O cálculo não é uma previsão de demanda, mas um teste para o planejamento da capacidade de resposta. Há décadas, a sociedade brasileira lança mão do imperativo do “Denuncie!”, mas quase ninguém discute o que aconteceria se a campanha desse 100% certo.
Ampliar a capacidade das mulheres de reconhecer a violência e buscar ajuda é indispensável, mas seu êxito produz uma obrigação correspondente para o Estado, que não pode convocá-las a atravessar suas portas e tratá-las como um imprevisto burocrático.
A vida real tampouco cabe só na delegacia. Uma trajetória de proteção pode exigir avaliação de risco, cuidados de saúde, assistência social, acesso à Justiça, proteção policial, apoio para moradia e renda, além de acompanhamento continuado.
A polícia é indispensável diante da necessidade de proteção imediata, mas não responde sozinha a experiências que reorganizam a vida das mulheres. Acolher essa diversidade exige diferentes portas de entrada articuladas em um percurso contínuo de proteção.
Sem interoperabilidade em escala nacional entre segurança, saúde, assistência social e Justiça, cada instituição enxerga apenas o fragmento que lhe cabe, enquanto a mulher continua obrigada a carregar a totalidade do caso.
Contar delegacias, inaugurar salas lilás e anunciar investimentos não nos diz o que acontece depois que uma mulher atravessa uma dessas portas: se os serviços estarão articulados, se haverá protocolos comuns e quem responderá pela continuidade do atendimento.
O valor dos dados estaduais não está em ordenar o país entre melhores e piores, mas em oferecer a cada gestor uma medida mais realista da violência em seu território. Planejar apenas para a demanda já visível produz uma espécie de tranquilidade estatística: as experiências que não chegam aos serviços tampouco entram no cálculo da política pública.
Os dados não dizem que milhões chegarão amanhã, mas mostram que não nos organizamos para a violência existente. Ainda administramos uma crise ou a demanda já excedeu, silenciosamente, a capacidade das instituições, colocando-nos diante de um desastre?







