Chegar ao fim de um casamento e ter que sustentar a vida sozinha tem um custo alto para as mulheres. O tempo que elas dedicam à casa e aos filhos exige, muitas vezes, uma pausa na carreira. Esse afastamento cobra um preço simbólico e literal.
Ao investigar a relação das mulheres com o dinheiro no estudo Elas pagam a Conta, Lab Think Olga e Think Eva, percebemos como o casamento e uma possível separação são divisores de água na vida financeira delas – e geralmente para pior. Também vimos que entender de regime de bens e se preservar de situações de violência ou infidelidade financeira são essenciais para conquistar mais autonomia.
Um breve panorama sobre direitos e casamento no Brasil
Para começar a entender por que casar ainda pode ser um mau negócio para a autonomia das mulheres, vamos começar olhando para as palavras e seus significados.
A palavra patrimônio está associada ao homem e representa os bens e a riqueza. A palavra matrimônio é associada às mulheres e representa casamento. Sucesso, para eles, é construir patrimônio. Para elas, é “casar bem”. Essa condição se reflete na nossa história recente e nas leis que, durante séculos, garantiram a dependência financeira feminina.
- 1916 – O Código Civil classificava as mulheres como “incapazes”, na mesma categoria que menores de idade. O marido era o chefe da sociedade conjugal: cabia a ele autorizar a mulher a trabalhar, assinar contratos e até aceitar ou recusar uma herança. O divórcio nem existia. Havia apenas o desquite, que separava o casal mas não permitia casar novamente. Para receber pensão alimentícia, a mulher precisava ser, comprovadamente, “pobre e inocente”.
- 1962 – O Estatuto da Mulher Casada deu às mulheres o direito de trabalhar e gerir bens sem pedir autorização ao marido. Garantiu também o direito à herança e a possibilidade de pedir a guarda dos filhos em separações. Ainda assim, a administração dos bens comuns continuava sendo masculina.
- 1974 – A Lei de Igualdade de Oportunidade de Crédito foi um marco. Antes, mulheres solteiras ou divorciadas precisavam de um avalista homem – pai, irmão – para abrir conta, pegar empréstimo ou ter cartão de crédito. A lei proibiu a discriminação por gênero ou estado civil. A partir daí, as mulheres puderam existir financeiramente sozinhas.
- 1988 – A Constituição Federal finalmente equiparou, ao menos no papel, homens e mulheres perante a lei. Proibiu a discriminação salarial e garantiu estabilidade para gestantes. Foi um divisor de águas, mas na prática as desigualdades seguiam e seguem.
- 2002 – O novo Código Civil extinguiu de vez o conceito de “chefe da família” como papel exclusivamente masculino. Homens e mulheres passaram a ter os mesmos direitos e deveres no casamento e na gestão do patrimônio.
- 2006 – A Lei Maria da Penha foi além da violência física e tipificou a violência patrimonial como crime: controlar o dinheiro da parceira, impedi-la de trabalhar, destruir documentos, reter cartões, esconder bens, tudo isso passou a ser reconhecido legalmente como uma forma de violência.
Regime de bens
Quando o assunto é casamento e dinheiro, uma das conversas mais importantes, e mais temidas e evitadas, são os regimes de bens.
Nos casos de separação total, o desbalanço financeiro pode ser muito grande para as mulheres: muitas vezes, elas não têm direito ao crescimento patrimonial do ex-marido, embora contribuam diretamente para que ele acontecesse, sustentando a casa, o cuidado familiar e, muitas vezes, o próprio avanço profissional do parceiro.
Já na comunhão parcial, outro problema recorrente aparece: o patrimônio nem sempre é transparente. Dependendo da dinâmica da relação, muitas mulheres desconhecem o real volume de bens, investimentos e patrimônio acumulado ao longo do casamento, o que dificulta até mesmo o exercício pleno de seus direitos na separação. Soma-se a isso o fato de que a expectativa de cuidado com os filhos continua recaindo majoritariamente sobre a mulher mesmo após a separação. Na prática, ela passa a acumular a responsabilidade doméstica, o cuidado cotidiano e a necessidade de reconstruir sua vida financeira ao mesmo tempo. O resultado é um processo concreto de empobrecimento feminino.
“No meu primeiro divórcio eu saí sem nada porque quis. Como ele tinha construído o patrimônio dele “sozinho”, carro quitado, apto financiado e eu quem tinha decidido terminar. Achei por bem ir embora sem nada. Foi uma grande burrice.”
Mulher da comunidade Think Olga
Infidelidade financeira e violência patrimonial
A traição (ou infidelidade) financeira ocorre quando um parceiro mente, omite ou esconde informações sobre dinheiro, como ocultar dívidas, gastos excessivos ou contas bancárias secretas. Esse comportamento quebra a confiança e é uma das principais causas de divórcio no Brasil. Um exemplo prático é a ascensão das bets e a tendência dos homens esconderem suas apostas das parceiras.
Já a violência patrimonial pode aparecer de formas explícitas, como destruir o celular para impedir contato com outras pessoas, mas também de maneira mais silenciosa e naturalizada dentro das relações. Um dos sinais de alerta é quando a mulher precisa pedir autorização para realizar qualquer despesa pessoal ou não possui acesso efetivo às próprias economias e decisões financeiras. O controle absoluto do dinheiro pelo parceiro pode produzir uma dependência econômica abusiva, limitando a autonomia e dificultando até mesmo o rompimento da relação.
“A gente vê isso nas situações de violência doméstica. Muitas mulheres permanecem nesses relacionamentos porque não têm renda própria e não sabem como conseguiriam cuidar de si mesmas e dos filhos sem nenhuma fonte de sustento. Por isso, a autonomia financeira é fundamental para qualquer pessoa, mas, para as mulheres, sem dúvida, ainda mais.”
Vera Rita de Mello Ferreira, psicóloga econômica
Esse tipo de violência também se manifesta pelo estelionato sentimental, quando alguém utiliza a confiança, o vínculo afetivo e a intimidade do relacionamento para obter vantagens financeiras, contrair dívidas, manipular patrimônio ou explorar economicamente a parceira.
Em muitos casos, o afeto se transforma em instrumento de controle e exploração.
O que está nas suas mãos
Alguns caminhos para as mulheres lidarem com o dinheiro dentro e fora do casamento, garantindo a sua autonomia, são:
- Mantenha renda própria. Ter dinheiro é ter condição de fazer as próprias escolhas e sair de espaços onde não te cabem mais. Independentemente do trabalho do seu parceiro e de condições que ele tente impor, busque alternativas para fazer renda própria, seja retomando sua carreira, vendendo produtos ou serviços como autônoma ou com bicos e trabalhos de meio período.
- Conheça seus direitos patrimoniais. Informe-se e entenda o que cada regime significa, o que é devido em caso de divórcio, herança ou partilha, e quais são os direitos dos filhos.
- Tenha acesso às finanças do casal. A pior coisa é chegar no divórcio sem noção do patrimônio real acumulado no casamento. Saber o que existe e onde está esse dinheiro e os bens é essencial.
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