A Copa do Mundo de 2026 tem chamado a atenção por uma cor que tomou conta dos gramados. Nike, Adidas, Puma e New Balance, algumas das maiores fabricantes de material esportivo do mundo, lançaram chuteiras em diferentes tons de rosa para a competição.
A escolha não é uma declaração sobre diversidade ou presença feminina no futebol. É estratégia: a cor se destaca no gramado, nos replays e nas fotografias, ampliando a visibilidade dos produtos.
Ainda assim, é difícil não enxergar uma contradição nesta Copa das chuteiras rosas. Enquanto a cor ocupa com naturalidade os pés dos maiores jogadores do planeta, 60% das meninas pelo mundo deixam de jogar futebol ao longo da adolescência. No Brasil, o índice sobe para 74%: praticamente 3 em cada 4 meninas.
O rosa chegou ao centro do campo. As meninas, nem sempre.
O número faz parte de uma pesquisa global encomendada por Dove, que ouviu quase 5 mil crianças e adolescentes de diferentes idades, etnias e origens em sete países, entre eles o Brasil. O levantamento revela que 1 em cada 2 meninas entre 11 e 17 anos abandona o esporte, proporção duas vezes maior do que entre os meninos. O principal motivo não é falta de talento, vontade ou prazer. É a baixa autoconfiança corporal. Segundo o estudo, 69% das meninas já deixaram ou pensaram em deixar alguma atividade esportiva por inseguranças relacionadas ao corpo.
É muita menina fora do jogo. O abandono pode começar em um comentário aparentemente banal sobre o peso, o uniforme, as pernas ou até a maneira de se movimentar. Aos poucos, a menina passa a olhar menos para o que seu corpo é capaz de fazer e mais para a forma como ele é visto. Então, deixa de correr porque se sente observada. Evita uma roupa porque acredita que ela mostra demais. Tem vergonha de suar. O que deveria representar liberdade passa a provocar constrangimento. Como resposta a esse cenário, Dove está trazendo para o Brasil o programa Confiança Corporal no Esporte, iniciativa global destinada a ajudar meninas de 11 a 17 anos a se sentirem mais confortáveis e confiantes para continuar praticando atividades esportivas. Desde 2023, o projeto já alcançou mais de 690 mil jovens ao redor do mundo
A proposta também envolve treinadores, treinadoras, pais, mães e atletas, com orientações para a construção de ambientes mais acolhedores e de uma relação positiva com o corpo. “A presença de Dove nos torneios reforça a intenção de usar a potência e o alcance do futebol para dar visibilidade aos desafios enfrentados por meninas no esporte, estimulando discussões sobre autoestima, pertencimento e permanência”, afirma Marina Ballini, Diretora de Marketing de Sabonetes & Dove Masterbrand. Patrocinadora das Copas do Mundo masculina de 2026 e feminina de 2027, a marca pretende usar a visibilidade dos torneios para ampliar a conversa. No Brasil, o programa será implementado com Laures Sports for Good, Instituto Esporte e Educação e Rede Esporte pela Mudança Social. A meta é impactar 80 mil jovens até o fim de 2027. “Hoje, Dove é a maior provedora mundial de programas de educação para a autoestima. Nosso compromisso com a vinda do projeto é apoiar a construção de ambientes mais positivos para que elas continuem no jogo e possam desenvolver todo o seu potencial”, acrescenta Marina.
A metodologia foi desenvolvida com instituições e especialistas como o Centre for Appearance Research e o Tucker Center for Research on Girls and Women in Sport, além de reunir contribuições de meninas, treinadoras e treinadores de diferentes países. A iniciativa é acompanhada pela campanha “O jogo é nosso”, com conteúdos produzidos com personalidades do esporte, como Alê Xavier e as jogadoras Tamires, Bia Zaneratto e Cristiane Rozeira. Mais do que uma assinatura publicitária, a frase funciona como um lembrete sobre quem tem o direito de ocupar o campo. O jogo é delas quando uma menina pode correr sem vergonha, suar sem constrangimento, errar sem ser ridicularizada e ocupar espaço sem pedir licença. Quando força, competitividade e ambição também são reconhecidas como características femininas. Cada menina que abandona uma modalidade por insegurança corporal carrega uma história que poderia ter sido diferente. Talvez encontrasse no futebol uma paixão; na corrida, um refúgio; na natação, um respiro; no vôlei, uma turma; ou na luta, uma força que ainda não sabia ter.
A Copa coloca o futebol no centro do mundo, mas a reflexão provocada por esses dados vai muito além do jogo. Quando uma adolescente abandona uma modalidade por não se sentir confortável com o próprio corpo, ela perde mais do que condicionamento físico: perde convivência, autonomia, confiança, coragem. Meninas não deveriam precisar vencer o próprio espelho antes de entrar em campo. A adolescência e o esporte já apresentam desafios suficientes; o corpo não pode se transformar em mais um obstáculo. Por isso, diante da simbólica Copa das chuteiras rosas, não basta levar a cor para o gramado. É preciso garantir que as meninas também tenham confiança, apoio e espaço para permanecer nele.
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