Um estudo da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP identificou que mulheres que empreendem nas áreas de STEM, acrônimo em inglês formado pelas palavras Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, enfrentam “barreiras não gerenciais”, que extrapolam a camada de competência técnica, para participar do mercado. Essas barreiras incluem estereótipos sociais de gênero, racismo e questões relacionadas à maternidade, impondo às empreendedoras uma constante performance de competência e legitimidade para serem reconhecidas no mercado.
O estudo foi realizado por Luciene Rodrigues de Andrade, egressa do Mestrado Profissional em Empreendedorismo e Inovação da FEA. O tema da pesquisa surgiu a partir da realidade vivida pela própria pesquisadora, ao perceber que ela e outras colegas que empreendem, especialmente na área de tecnologia, sentiam uma maior dificuldade de acesso ao mercado. Luciene é cofundadora de duas empresas, uma delas a startup We Rock It, que oferece uma plataforma de ensino.
Para sua dissertação de mestrado, intitulada Desafios e barreiras não gerenciais do empreendedorismo feminino nas áreas STEM no contexto estereotipado de negócios brasileiro, Luciene entrevistou 12 empreendedoras, que responderam a perguntas sobre trajetória profissional, desafios, gestão, mercado, finanças e perspectivas futuras.
A pesquisa utilizou a metodologia Grounded Theory (teoria fundamentada), em que a teoria é construída a partir dos dados coletados. Como resultado, a pesquisadora identificou três frentes de barreiras ao empreendedorismo feminino e três arquétipos de comportamento das empreendedoras.
As 12 entrevistadas tinham entre 22 e 60 anos e diferentes tempos de experiência no mercado. A maioria se autodeclarou como branca, enquanto duas eram pardas e duas pretas. Nas perguntas relacionadas à questão financeira, como primeira captação de investimentos e dificuldades para iniciar o negócio, mulheres negras e pardas relataram dificuldades mais acentuadas.
A partir das conversas com as entrevistadas, Luciene identificou três arquétipos, ou padrões de comportamento, para cada grupo de empreendedoras: a estrategista do sistema, a catalisadora do coletivo e a guardiã da autenticidade.
Segundo Luciene, a guardiã da autenticidade preserva sua identidade diante das pressões do mercado, a estrategista do sistema cria formas de contornar as barreiras e as catalisadoras coletivas são as que fortalecem redes de apoio entre empreendedoras.
Todas as entrevistadas destacaram a necessidade de provar constantemente sua competência. A teoria que abrange essa necessidade é da Gestão de Legitimidade em Múltiplas Frentes, que defende que essas empreendedoras constroem e defendem o tempo todo sua legitimidade diante das barreiras impostas pelo mercado.
“Então, eu preciso provar para o mercado que o meu conhecimento é válido. Eu preciso provar dentro da minha casa que eu dou conta de gerir essa casa e, ao mesmo tempo, conseguir trabalhar, mostrar que meu trabalho tem valor, porque a mulher é colocada nesse papel de cuidado”, explica Luciene.
A pesquisadora observa que quando mulheres são associadas a uma empresa, quase sempre é uma empresa voltada para o cuidado. “‘Ai, você é uma ONG?’ Eu faço reator. Como é que eu sou uma ONG? Ou ‘então, você vai empreender em beleza?’ Não, estou criando a formulação do cosmético, não vendendo o cosmético”, exemplifica.