
Artigo por Ladyane Souza, advogada feminista e
mestranda em Direitos Humanos pela UnB
Estamos em uma guerra invisível, e invisibilidade é um assunto que nós, mulheres, conhecemos bem. Tivemos que suportar muitas coisas em silêncio e caladas nos últimos séculos – ainda hoje as mulheres são responsáveis por alimentar a comunidade, são cozinheiras, passadeiras, diaristas, costureiras, mas o papel de estar à frente, em evidência, nunca está dado: a nós o mais comum é o anonimato.
No Brasil, 45% dos lares são chefiados por mulheres[1], sendo que o Nordeste é a região em que mais mulheres são chefes de família. De um lado isso pode significar que a mulher está ganhando espaço público, empoderando-se e conseguindo sustentar a casa. De outro lado, nas camadas mais pobres, significa dizer que temos no Brasil milhares de lares em que as mulheres são as provedoras e estão tentando fechar as contas para pagar os boletos, os cuidados com os filhos, comprar remédios, assegurar a moradia e o aluguel.
Marias, Franciscas, Joanas seguem no anonimato assegurando a alimentação dos seus, agora com mais uma preocupação do vírus novo que pode afetar a vida de todos, e que já afeta a fonte de renda. Assim, várias dessas mulheres, além de se preocupar com a doença, com o Coronavírus em si e a possibilidade dele se alastrar e infectar entes queridos, diariamente têm a sobrecarga mental de organizar a despensa da casa, a higiene, a água, fazer a comida e a limpeza, pagar as contas, gerir a economia familiar.
“Não, eu não trabalho não, só sou do lar mesmo” dizem muitas mulheres que se dedicam ao trabalho doméstico para que suas crias e companheiro possam ir trabalhar. Esse trabalho de uma jornada invisível continua a cargo das mulheres e se agrava no contexto da pandemia, no qual os lares precisam estar abastecidos e limpos. Não à toa, uma das primeiras mortes confirmadas do covid-19, foi a de dona Cleonice, trabalhadora doméstica de uma família que acabara de chegar de uma viagem à Itália.
Sabemos que a necessidade de trabalhar fora é uma urgência que afeta a cada uma das mulheres de forma diferente, sendo mais grave para as mulheres trans, as mulheres negras e as periféricas; deixá-las sem assistência, nesse momento, se trata de verdadeira violência patrimonial do Estado. É preciso dizer que o confinamento e o isolamento também adquirem contornos mais tristes para cada mulher, como para mulheres idosas, com deficiência, ou mães de filhos com deficiência. Não podemos esquecer dessas pessoas que muitas vezes já se encontravam em situação de isolamento mesmo antes da pandemia mundial.
Há ainda, nas famílias brasileiras, um problema que se agrava com a intensidade do convívio sob um mesmo teto: além de mulheres e meninas sobrecarregadas com tarefas, é preciso registrar que o cenário de violência doméstica e sexual aumentou exponencialmente. Em um dos países mais violentos para mulheres e pessoas LGBTs, o confinamento traz relatos de brigas de casal da vizinhança, ameaças diárias e o alerta iminente de feminicídios.
Precisamos umas das outras nesse momento. É verdade que sempre precisamos e deixamos o filho com uma e outra, pedimos ajuda, vigiamos os passos daquelas com quem nos preocupamos. Desta vez, o cuidado continua existindo, e à distância temos que fortalecer as nossas redes de mulheres, tão essenciais para a existência de cada uma. Nessa mesma época, na França, as mulheres divulgaram palavras-chave para aquelas em situação de violência dizerem nas farmácias, ou a qualquer lugar ao qual consiga ir, para que possam ser resgatadas.
Conquanto a realidade brasileira seja ainda mais dura, visto que temos mais violência de gênero e o genocídio da população negra e pobre em curso, precisamos sim garantir a integridade umas das outras, pedindo juntas renda assistencial, divulgando informação segura sobre economia de água, sobre telefones de denúncia, de proteção e apoio.
Seguramente, saber que existem iniciativas de ONGs e coletivos populares para mulheres que estão nas ruas ou confinadas em casa faz toda a diferença. Além disso, os sistemas de proteção devem ser acionados: agora, mais do que nunca, precisamos saber que não estamos sozinhas e devemos levantar a nossa voz.
Por tudo isso que acontece diariamente em tantos lares brasileiros, precisamos por fim entender: um presidente que zomba do vírus, zomba também da condição a que estamos submetidas, cada uma à sua maneira, na vulnerabilidade deste novo perigo, que deixa mais evidente tantos outros perigos aos quais estamos expostas enquanto mulheres. Fico com os versos da canção de Elza Soares “…cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim…” e não tenho dúvidas de que a onda das mulheres dará muitas lições de casa a todos nós.
[1] Dados do Ipea, 2019.
