Todos nós passamos pela fase da adolescência. Aquele momento em que nada parece certo e tudo aparentemente vai dar errado. Não temos certeza de nada ao mesmo tempo que parece termos certeza de tudo. O corpo começa a mudar: há um aumento de hormônios, nossa estatura aumenta, os pelos aparecem, as axilas começam a cheirar forte, os seios aumentam e ainda, para as meninas, há a primeira menstruação.
O humor muda, as pessoas parecem estar todas contra você, seus pais não te entendem, as pessoas não te escutam, nada parece fazer sentido e você decide então desistir de tudo. Entre eles: o esporte.
A adolescência é a fase em que as meninas mais desistem de fazer esportes devido às mudanças corporais nessa idade, que as fazem ter uma baixa confiança corporal, à falta de conversa com adultos ou especialistas sobre o assunto, à vergonha, ao medo e ao ambiente predominantemente masculinos, que costumam não entender o que acontece com o corpo feminino.
— Existem muitas expectativas nas meninas em se tornar moças. Tem o orgulho em torno de crescer, mas tem a vergonha também. Elas começam a perceber que vão ter cólicas todos os meses, que vão ter que lidar com a alteração do humor, são taxadas de chatas, rebeldes e que não gostam de nada, quando, na verdade, faz parte da adolescência ter esses conflitos — explica a psicóloga Solange Ramounoulou.
Uma pesquisa global realizada em 2023 pela Dove e Nike em sete países, inclusive o Brasil, mostrou que a baixa confiança com o próprio corpo é o motivo principal que leva meninas entre 11 e 17 anos a largarem a prática de esportes. Quase metade (45%) das garotas nessa faixa etária abandonam atividades físicas. E o momento mais crítico é o da primeira menstruação.
No Brasil, a idade média da menarca, ou seja, a primeira menstruação, é de 12 anos, e é normal que ocorra entre os 9 e os 13 anos. Mas esse é apenas um capítulo da história.
Ramounoulou diz que as adolescentes, nesta etapa, são cobradas de ter uma autonomia que elas não estão prontas para ter.
— De repente você precisa esconder a menstruação. Você não é mais legal, está suja. Elas pensam assim, apesar de ser algo normal e que todas as mulheres passam. Elas pensam que é algo vexatório, sentem vergonha de aquilo estar acontecendo com elas. E se acontecer na frente dos outros, e se rirem dela, e se ela não conseguir esconder enquanto está jogando? É uma sensação nervosa e angustiante — diz a psicóloga.
Além disso, ainda há a parte competitiva do esporte. A menina tem um grupo de amigas ou aquelas outras que não são tão próximas assim, e ela acredita que precisa ser melhor, precisa jogar mais. Porém, no período menstrual, é natural que a garota se sinta mais cansada, sonolenta, dolorida e não consiga dar o seu melhor. Ao perceber que isso vai acontecer todos os meses, sem um aconselhamento ou uma conversa direta com familiares, ela tende a abrir mão do esporte.
— Por conta da progesterona, elas vão ter as mamas mais inchadas, podem ter um acúmulo de líquido mais abdominal, uma diminuição do trânsito intestinal, causando mais constipação e desconforto, e mais sonolência e cansaço. E podem também ser acompanhadas pelas cólicas menstruais mais exuberantes. E isso, por si só, já pode afetar o engajamento dessas meninas nas atividades físicas — diz a ginecologista e especialista em saúde e autoestima da mulher, Aline Ambrósio.
A pesquisa realizada pela Dove e Nike mostrou ainda que 46% das meninas que abandonaram os esportes ouviram que não possuem o corpo certo para o esporte que praticavam e foram objetificadas ou julgadas pela sua aparência física, e 54% ouviram que não eram boas o suficiente. No Brasil, 41% das meninas ouvidas na pesquisa que abandonaram o esporte falaram que se sentiram objetificadas enquanto praticavam esportes e 89% delas acreditam que o esporte deveria ser mais inclusivo para garotas.
Foi o que aconteceu com Maria Eduarda Coltro, de 14 anos. A garota vem de uma família que ama esportes e o pratica de forma profissional há anos. Os pais já jogaram tênis nas adolescência, o irmão é competidor de polo aquático e ela, crescendo neste ambiente, começou a praticar tênis desde muito cedo, com 5 anos de idade. Porém, há poucos anos precisou mudar de turma, pois começou a sofrer bullying de outros meninos.







