No Brasil, ser dona do próprio trabalho é, em grande parte, um papel materno. Segundo a 11ª edição da pesquisa “Empreendedoras e Seus Negócios”, lançada nesta quinta-feira (13), em São Paulo, 73,8% das empreendedoras do país são mães, e quase metade delas (42,4%) cuida dos filhos sozinha, o que impacta diretamente a decisão de gerar renda por sua conta.
Realizado pelo Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME), o levantamento colheu informações de 1.176 entrevistadas de todas as cinco regiões. Elas provam com números o que a realidade insiste em escancarar no dia a dia: a atribuição das tarefas do cuidado segue como uma barreira ao crescimento profissional feminino.
Entre elas, 80,7% afirmam já terem interrompido suas atividades para cuidar de alguém. Como 70% trabalham sem qualquer equipe, esse tipo de pausa implica parar o negócio por completo, afetando não apenas a produtividade e o fluxo financeiro da casa, mas a saúde mental e física.
“Cerca de 55% dessas mulheres não empreendem porque querem, mas porque são empurradas para fora do mercado. Precisamos olhar para isso com muita responsabilidade”, afirma Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora. A ausência de qualquer rede de apoio agrava o caso: 3 em cada 4 se desdobram em demandas de cuidado sem parceiro, parente, amigo ou babá com quem dividir o peso.
“Para mim, uma das políticas mais importantes é zerar a fila de creche, mas não somente: ela precisa ter horários adequados à realidade dessa mãe, para que ela não seja prejudicada se tiver um negócio com outro tipo de flexibilidade”, completa Ana. Nesse sentido, ela também reforça a necessidade de efetivação da Política Nacional de Cuidados, instituída em 2024 com o objetivo de reduzir as desigualdades de gênero.
Quase metade das respondentes tem um faturamento mensal de até dois salários mínimos, o que equivale a R$ 3.242. O número pode parecer baixo, mas representa uma evolução: em 2025, elas conseguiam arrecadar até R$ 2 mil por mês.
Outro dado positivo, segundo Ana, é o aumento gradual do acesso ao crédito, que passou de 25% em 2023 para 47,8% em 2026, possibilitando investimentos para fazer o negócio decolar. “Fico animada com isso, porque o mercado financeiro não costuma olhar para as mulheres.”
A pesquisa também revela desigualdades raciais. Mais da metade das entrevistadas (52,3%) é negra, e 42,8% delas sofrem com a informalidade, percentual 75% maior do que entre as mulheres brancas. “Isso implica mais tempo sem CNPJ e sem acesso a direitos estruturados em relação a crédito, financiamento e possibilidades de aumento de faturamento”, explica Carol Alencar, coordenadora de monitoramento e avaliação de impacto do IRME.
Além disso, 48,2% dessas mulheres vivem em bairros afastados dos centros urbanos, e 16,5% pertencem a comunidades tradicionais, como ribeirinhas e quilombolas. Tudo isso influencia a disponibilidade de insumos, transporte e consumidores a elas.
Fragilidades na organização do trabalho têm implicações na atividade em si, levando 42,3% delas a indicarem a gestão financeira como desafio. Muitas têm dificuldade de calcular o preço da hora de trabalho ou de implementar uma logística de distribuição de produtos, por exemplo. O resultado é que 38% delas faturam menos do que gastam no próprio negócio.
Apesar de o estudo indicar que nove em cada dez empreendedoras não conseguem ter sobra para reinvestir ou poupar, quando isso acontece, o dinheiro costuma ter um destino específico. “Elas tendem a investir mais na própria educação, ou seja, estão focadas no autodesenvolvimento”, diz Carol. Essa perspectiva converge com outro indicador que cresce ano após ano: 57,9% das empreendedoras têm ensino superior completo ou mais.
Em relação à faixa etária, a maior fatia dessas mulheres está entre 40 e 49 anos. Além disso, houve um salto de 1% para 5% entre as que têm mais de 70 anos e tocam seus negócios. Entrevistas qualitativas realizadas em paralelo ao questionário on-line dão uma pista sobre o porquê desse incremento na maturidade: muitas dessas mulheres passaram a encarar o trabalho artesanal também como empreendedorismo.
Para estimular a profissionalização desses negócios, o IRME realiza cursos e capacitações pelo Brasil, incentivando a formalização. Do lado das políticas públicas, Ana espera uma maior atenção às chamadas nanoempreendedoras — mulheres para quem os cerca de R$ 70 mensais de imposto, cobrados no regime de microempreendedor individual (MEI), pesam no orçamento no fim do mês. Ela também cobra a aprovação do aumento do teto de faturamento anual do MEI, atualmente em discussão na Câmara dos Deputados, o que permitiria a essas mulheres faturar mais sem mudanças no regime tributário.
Apesar dos obstáculos, a pesquisa aponta que a maioria das empreendedoras brasileiras acredita em seus negócios: 70,1% se dizem confiantes e 66,7%, otimistas quanto ao futuro. Para Ana Fontes, esse resultado não é acaso. “Empreender tem muitos altos e baixos. Então, quem quiser empreender e for pessimista, está no lugar errado. O otimismo é o que te move”, conclui Ana.
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